Gafe Não é Pecado - Literatura nacional #1

4 de jul de 2016


Nome: Gafe Não é Pecado
Autora: Claudia Matarazzo
Ano: 1996 
Páginas: 159
Editora: Melhoramentos 


"Feito sob medida para quem sabe que o 'jogo de cintura' e a capacidade de improvisação são essenciais para não perder o charme neste mundo cheio de imprevistos. 'Gafe Não É Pecado' mostra que é possível escapar ileso (ou quase) aos deslizes de nosso dia-a-dia.
Um indispensável manual para prevenir gafes e nos ensinar como sobreviver a elas. E é também uma coleção de gafes hilariantes cometidas por pessoas famosas, como, aliás, a própria autora."



   Fazia tempo que eu queria estrear essa coluna aqui no blog. Antigamente eu adorava literatura nacional e de cada cinco livros lidos, três eram nacionais. Infelizmente eu perdi esse gosto e para recuperá-lo decidi dar um cantinho aqui no blog para esses livros que um dia me encantaram. 
   Me lembro de ter lido esse livro no ensino médio. Sabe aquele livro que você leu a anos e nunca mais esqueceu? Então, esse é um daqueles. Ele contém várias histórias reais de momentos extremamente constrangedores e hilários vividos pela Claudia e pelos amigos e família dela. 

"Viajando pelo Brasil durante o lançamento de Etiqueta sem Frescura, notei que, além da vontade de conhecer o que é "certo" em determinadas situações, as pessoas também tinham muita curiosidade em saber o que é considerado "errado" em matéria de comportamento. Durante minhas palestras, percebi que sempre depois de citar o exemplo do que não se devia fazer as pessoas se descontraíam e
contavam suas próprias experiências de gafes. A partir daquele momento a palestra esquentava e adquiria um caráter mais informal, muitas vezes continuando em algum bar, onde os grupos relatavam, às gargalhadas, passagens constrangedoras. Parecia roda de piada, mas era uma mesa de gafes, o que é uma coisa completamente diferente, como você poderá constatar. O fato é que as gafes aproximam as pessoas. A simples noção de que não fomos os únicos a sentir aquele embaraço mortal e atroz sem dúvida atenua a sensação de incompetência que nos acomete quando acabamos de cometer uma gafe."


   Não dá para adentar muito no livro porque, como a sinopse já disse, se trata de uma coletânea de histórias. Eu gostei muito, a escrita é fácil, a diagramação é boa, super vale a pena conferir. Embora seja uma leitura bem leve, tem o seu valor. Vou deixar abaixo uma das histórias do livro. Espero que gostem.



GESTO DE RAINHA

   Você já parou para pensar o quanto os frangos em geral conseguem atrapalhar a vida da gente? Na estrada são um perigo: quantas vezes nós somos obrigados a frear alucinadamente por causa de algum maldito frango que resolve atravessar a pista "de volta", quando já estava quase tocando ao outro lado? Não é à toa que no futebol um "frango" chega a arruinar uma campanha que, de modo geral, pode estar até se desenvolvendo muito bem. Finalmente, à mesa, os frangos constituem uma verdadeira ameaça à nossa dignidade. Que o diga meu amigo Hélio Pires. Helinho vive na ponte aérea São Paulo—Nova York. Como é dessas pessoas sempre de alto astral, inteligente e divertido, acaba sendo muito disputado todas as vezes que chega a uma dessas cidades. Jantares de bota-fora ou de boas-vindas acabam se transformando no melhor pretexto para usufruir de sua companhia. 

   Assim, Pedrita Lopez, uma venezuelana radicada há muitos anos em Manhattan, numa dessas ocasiões, organizou um jantar de boas vindas a ele. As pessoas se referiam a Pedrita como a "rainha do petróleo", não sem um certo toque de inveja pela sua óbvia e saudável condição financeira. Pedrita é rica e não faz segredo disso. E tão rica que ninguém acredita que seja igualmente elegante. Pois nessa noite ela acabou provando que não é apenas finíssima, mas também dotada de uma notável presença de espírito. Assim que todos tomaram seus lugares à mesa, começaram os comentários sobre o belíssimo arranjo de flores, artisticamente arrumado ao centro.    
  
   Era um desses arranjos surpreendentes pela beleza e vivacidade das flores, mas também pela forma como havia sido arrumado: um tronco central servia de suporte, como um iquebana mais rústico, dentro de um vasilhame de Murano muito sofisticado, que, por sua vez, servia de recipiente para que outras flores flutuassem delicadamente na água salpicada de dourado. Uma verdadeira poesia.

— As flores são de um exotismo ímpar! Nunca vi nada parecido — disse uma convidada.
— Vou contar um segredo — disse Pedrita. — Sei que foi uma extravagância, mas acho que valeu a pena. Eu vi essas flores em minha última viagem à Austrália. Hoje, em homenagem a Hélio, que mora num país tropical, mandei vir estas. Chegaram no voo desta madrugada. Valeu a pena, não?
— Se valeu? Estão maravilhosas! E depois a forma como estão dispostas! E uma pequena obra de arte.
— Esta foi outra extravagância — continuou animada nossa anfitriã. — Conheci outro dia Ralph    Morgan em sua exposição sobre arte e natureza. Fiquei muito impressionada com as suas instalações. Sei que ele é artista plástico, mas, como acabamos ficando muito amigos, tomei coragem e lhe pedi que desse o seu toque pessoal a este arranjo. 

   A mesa inteira suspirou, emocionada. Uau! Ralph Morgan em pessoa dera o seu toque genial àquela sinfonia floral, e eles estavam todos ali, à sua volta, como se fosse a coisa mais natural do mundo comer frango ao curry em frente a obras como aquela. Helinho, modesto e também muito impressionado, murmurou um agradecimento. Na verdade, ele tentava se concentrar na sobrecoxa de frango em seu prato, que, naquela noite, parecia mais difícil do que de costume para cortar. Vai ver era o jet-lag que o estava deixando mole daquele jeito. Talvez com um pouquinho mais de força... Pronto! Empunha garfo e faca com mais vontade, aplica um golpe firme no frango e... acompanha mesmerizado a sobrecoxa dar uma pirueta no ar, sair do seu prato como que em câmera lenta e aterrissar com um vergonhoso "splash", na água salpicada de dourado do arranjo de Ralph Morgan. 

   Ele não pode acreditar em seus olhos: o desastre é muito maior do que se pode imaginar. O tronco de iquebana, atingido em cheio, caiu, espalhando água, flores e dourado pela mesa, e jaz como uma ruína mergulhado no Murano. Onde antes as flores flutuavam delicadamente entre pingos dourados, boia agora, despudorada e engordurada, a
infame sobrecoxa. Todos estão tão atordoados que, quando dão por si, Pedrita já havia retirado o que restava do arranjo, não sem antes separar algumas flores sobre a mesa.

   Em menos de um minuto, ela está de volta e coloca pessoalmente uma flor na argola do porta-guardanapo de cada convidado, declarando graciosamente:

— Não se preocupem, agora cada um de nós tem um fragmento da obra de Ralph Morgan. Na minha terra dizem que qualquer coisa dourada sobre a mesa traz dinheiro. E dinheiro, meus amigos, como
vocês bem sabem, nunca é demais.

   Resgatado com tanta finura, foi fácil para Helinho sobreviver ao final da noite.
   Desde aquele dia, ele salta em defesa feroz quando qualquer engraçadinho se refere a Pedrita como "rainha do petróleo". Em sua abalizada opinião, poucas rainhas de verdade teriam o traquejo social de sua amiga venezuelana.

10 comentários :

  1. Oi, Pri!
    Que legal sua coluna! Eu quase não leio nacional. Não que eu não goste, mas é que às vezes a premissa não me encanta sabe?
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe da promoção de aniversário do blog Crônica sem Eira

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    1. Sei bem como é isso, parece que falta um tchan né.

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  2. Olá, Priscila.
    De um ano para cá mais ou menos tenho lido muito nacional e tenho encontrado ótimas obras. É claro que tem coisas que não valem a pena, mas isso tem em todo país hehe. Esse livro me interessou bastante apesar de não ser muito fã do gênero. As histórias devem ser maravilhosas. Eu sempre acabo cometendo uma gafe hehe. Parece até planejado hehe.

    Blog Prefácio

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    1. E quem nunca né. De vez em quando eu cometo uma aqui outra ali, acho que faz parte né.
      Beijos

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  3. Oi Pri! Eu já li mais nacionais, mas hoje meio que estou em falta com nossos autores. Gostei da dica, gostaria muito de conferir.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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    1. Oi Cida, dá uma conferida sim, garanto que você não vai se arrepender.
      Beijos

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  4. Eu não sou muito intima com Nacionais, mas sei que valem a pena e a maioria são bons, como tenho certeza que esse é. Preciso escapar dos gafes!!
    Beijos
    www.leitorasvorazes.com.br

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    1. Me diverti horrores quando li esse livro.
      Beijos

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  5. Oie Priscila!!
    Que máximo, adorei sua iniciativa de valorização da nossa literatura nacional. Há tantas boas histórias perdidas por aí, não é mesmo? Achei esse livrinho uma graça, principalmente por ele remeter memórias boas à você. Livro bom é aquele que a gente nunca esquece ♥

    Um beijo!
    Débora
    http://amorlivronico.blogspot.com.br/

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    1. Com certeza! Esses são os que nos marcam.
      Beijos

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